Era 7 da manhã, ele levantou-se como de costume. Mas havia algo de estranho, a cama estava vazia e remexida. Ela já havia levantado.
_ Rita! Chamou-a em um tom rijo. Mas a casa ficou em silêncio.
Abriu as janelas e os raios do Sol pareciam enfurecidos. Entraram ligeiros no quarto, fazendo refletir no chão de tábua corrida velha, mas que com tal zelo que dava gosto. Ele puxou a cortina e saiu pela casa.
O silêncio da casa fez-se terminar com o ruído das velhas tábuas que o seu andar provocava.
Ela estava ali, ajoelhada de frente para a sua protetora Santa Rita de Cássia. Ele aproximou-se.
_ O que fazes aí tão cedo, Rita?
Ela, dedilhando o terço e com a voz trêmula.
_ Shiiii! Estou rezando, não vês?!
Ele percebe que algo estranho pairava o ar e afastou-se.
_ Ó céus! Que diabos essa mulher tem?!?! Pensou alto. Com os olhos úmidos, saiu da sala.
Sentou-se na beira da cama e pôs-se a olhar a foto sobre o criado. Era uma foto dos tempos de colégio. Ela olhava pra ele de um jeito forte e ditoso. Aquela cena fez-lhe lembrar de como a vida era simples. A emoção transbordou, fazendo rolar uma lágrima. Chico sentiu de longe a tristeza de seu dono, aproximou-se e deu-lhe um afago.
_ Zé! - ela chegara na porta com o rosto molhado e sua bolsa de pano cheia, nas mãos - Estou indo embora!
Houve um profundo e doloroso silêncio. As lágrimas caiam de todos os lados. Zé levantou-se da cama, e em direção à Rita, deu-lhe um forte e demorado abraço.
_ Me diz o que houve, mulher! O que eu deixei faltar???? - Chico espantado, correu para a porta.
_ Nada, homem... Nada!
As palavras saiam molhadas do choro. Ele sem entender.
_ Mas então por que vai me deixar assim? Me diga o que eu deixei faltar? - Ele insistia angustiado. - Cê tá doente? Cê me traiu? Porque se tiver me traí...
Ela afastou-o e tampou-lhe a boca.
_ Eu lhe tenho respeito, Zé - interrompeu.
Os dois sentaram-se na cama. Ela limpava o seu rosto e olhava no fundo dos olhos de Zé, como se olhasse a sua alma.
_ Zé, eu preciso ir. Não traí ocê, eu lhe tenho muito respeito, homem! Mas eu tô esquisita. - ela consertou o cabelo e colocou a mão no peito. - Meu peito dói. Dói de fazer ocê sofrer...
_ Que idéia é essa, mulher! - ele interrompeu - Ocê me faz feliz! Eu sei que a vida aqui te deixa preocupada, mas as coisas vão mudar. Confie em mim!
_ Zé, ocê é o marido que toda mulher sonha. Ocê nunca me deixou falta nada... Nada!! O problema é comigo, Zé. Eu tô com um nó no peito. Tô me dando muito nos nervo! Eu sei que esses dias aqui não foram fáceis pr'ocê. Tô fazendo ocê sofrer, Zé. Eu sinto! Por isso eu vou-me embora. Preciso me "curar"... - as lágrimas voltam a escorrer.
_ Curar? - ele pergunta - Mas ocê tá doente?
_ É, curar. Eu tô doente sim, Zé. Mas é doente aqui dentro - pegou a mão dele e, sobre a sua mão, colocou-as no peito - aqui dói. - Eles se abraçaram novamente.
_ Me perdoa, Zé! - ela levantou, pegou a bolsa e saiu pela porta, onde o Chico assistia àquela cena.
Zé correu pra janela, e deu um grito.
_ Eu te amo, Rita!!!!
Ela olhou pra trás e disse.
_ Eu também, Zé... Eu também!!! - E saiu correndo, com a sua bolsa de pano na mão.
Chico aproximou de seu dono. Zé abaixou-se, e com o rosto molhado, disse.
_ Ela foi-se embora... Como vou fazer sem essa mulher? - Chico deu-lhe uma lambida, como se entendesse toda aquela situação. - Mas ela vai voltar. Eu sinto.
Zé levantou-se, fechou a cortina e foi até a porta. Chico do seu lado, deu uma latida forte olhando para fora da casa. Zé, sem dar muita importância ao que seu companheiro tentava mostrar, avistou de longe uma coisa caída ao chão. Era o terço da Rita. Zé então o apanhou, olhou para Chico e confirmou.
_ Ela vai voltar, Chico... Ela vai voltar! - e guardou o terço no seu bolso.
Os dois voltaram para casa e a porta bateu, colocando fim na triste cena.
Naquele dia foi como se um tufão tivesse passado numa parada e pacata vila, e tivesse levado a humilde casa de Zé. Ele teria que começar do zero, com apenas o Chico e um terço. Ele entrou no quarto, deu um beijo na foto, colocou o terço em volta da moldura e saiu. Zé precisava começar o dia no campo. Chico subiu no sofá, debruçou-se na janela e ficou olhando o tempo passar. Já era quase meio do dia.
- Continua -