Tenho dentro de mim o céu e o inferno, se enfrentando constantemente. Aquilo que me eleva é o mesmo que, por algum descuido de atenção, me faz rebaixar até aonde existem apenas os meus medos, que me dilaceram a alma. Quantas emoções criei? E quantos medos eu gerei? Os números, eu desconheço. Mas foram na mesma proporção e intensidade. Desde a primeira emoção, quando ganhei a estrelinha dourada no caderno de desenho. Mostrava a todos o meu potencial e minha brilhante capacidade de ser muito boa desde tão cedo. Emoção exprimida demasiadamente por mim me fez não me dar conta de que aquela estrelinha dourada era apenas um gesto de incentivo, e não um troféu de melhor aluna. Quando no meu dia, alguém me presenteava com a lembrancinha mais banal, me fazendo encher de sentimentos bons, a teimosa emoção crescente me acompanhava até o pensamento de que teria aquele alguém até o meu último aniversário. Emoções: algumas criadas, outras excessivas, mas todas minhas. A vitória do campeonato de xadrez, as apresentações de final de ano no jazz, o primeiro amor, o primeiro bouquet de rosas vermelhas, o "segundo primeiro beijo", os amores eternos, as borboletas que visitaram meu estômago, todos que chamei de "meu", os shows classificados como "da minha vida", várias canções "minhas", as viagens de verão, as viagens de lua-de-mel, os passeios no zoológico, os gritos nos vários parques de diversão, os coelhinhos na lua, o presente de uma estrela cadente, a 1ª CNH chegando pelo Correio, a primeira voltinha de carro, a emoção de ser perdoada, de ser compreendida, de dizer a verdade, de pintar o amor com cor demais, de fazer renascer o amor, de poder contar com alguém, de chorar junto, de dizer "eu errei" sem máscara, de ter sempre a quem amar, os sms do meu pai, a alegria da minha mãe ao me ver chegar, a responsabilidade e a (maior, até) emoção de ser titia/dinda da criatura mais linda de todo o universo. Todas essas emoções, sem exceção, foram/são sentidas exorbitantemente por mim, sem peso nem culpa. Assim também era com todos os meus medos e frustrações, sempre muito profundos e acentuados. Meu medo de ir sozinha até a cidade vizinha, num endereço desconhecido, me fazia viver a cena de um possível furto, seguido de fuga dos trombadinhas e, por fim, perder o rumo de vez. Medo de ser responsável pelo fracasso do trabalho de turma do colégio. Medo de descobrirem que a imagem de responsável e certinha do qual fui nomeada, seja apenas fruto da cabeça das pessoas que sempre imaginavam ser a menina quieta, tímida e risonha da turma. Medo de não ser boa em tudo o que faço. Medo de não tirar a carteira de primeira como minha irmã, e ser cobrada por isso. Medo de não saber como demonstrar todos os sentimentos habitantes em mim e ser mal compreendida por tal. Medo do que possam pensar se eu disser tudo o que penso de verdade. Medo de, não dizendo a verdade, ser interpretada como não confiável. Medo de faltar o ar. Medo de escolher a cor do esmalte errada. Medo de escolher o curso que não se pareça comigo e perder uns 4 ou 5 anos da minha vida estudando algo que não gosto, sem ter nenhum retorno depois. Medo de perder todos que amo. Medo de continuar perdendo tudo e todos que um dia eu achei que fosse meu, de alguma maneira. Medo de não ser nada na vida. Medo de desistirem de mim. Medo de não ser capaz. Medo da falta de amor. Medo da escuridão. Medo da enfermidade. Medo da solidão. Medo da vida. Medo da morte. Medo de gente. Medo do medo.
Pra quê tanto excesso? Tanto exagero? Tanto ênfase? Tanta profundidade? Colocar a culpa no signo de escorpião funciona? Ou será que culpar a sociedade é mais aceitável e compreensivo? Prefiro tomar a culpa de todos os exageros, lapidar todos os excessos e aceitar o eu, o grande EU que existe aqui dentro.
"O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo?" (C. L.)